LIXO ESPACIAL

Prof. Renato Las Casas

(01/04/2008)

        Acredito que todo problema tem a hora “certa” de ser tratado. Se nas nossas primeiras investidas espaciais ficássemos preocupados em não deixarmos partes de foguetes; satélites já inoperantes; peças; resíduos; ferramentas; etc., vagando “soltos” no espaço; certamente o nosso desenvolvimento astronáutico teria sido bem mais lento.
 
        Hoje, várias décadas após o Sputnik, a situação é muito diferente. Por um lado, esses “dejetos” (ou “lixo”) gravitando em torno de nosso planeta já são em tão grande número (e o numero deles cresce cada vez mais) que têm ameaçado a segurança de nossos astronautas; naves; satélites; etc.; e em alguns casos, já têm até ameaçado a nossa segurança em terra. Por outro lado, o nosso conhecimento astronáutico chegou a um nível que nos permite investir na procura de soluções práticas e economicamente viáveis para o problema, sem determos nosso desbravamento espacial.
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        Dia 22 passado, um estranho objeto, com um metro de diâmetro, caiu a cerca de 150 metros da sede de uma fazenda em Montividiu, interior de Goiás.
        Seria sobra de algum satélite ou foguete? Possivelmente um tanque de combustível?
         Essa não é a primeira vez que registramos a queda de lixo espacial em território brasileiro. Em 1995, por exemplo, fragmentos de um satélite chinês de comunicação caíram no interior de São Paulo, no município de Itapira. Em 1966, um tanque de combustível de um foguete Saturno, com um metro de diâmetro caiu na costa do Pará, sendo achado por pescadores.
        Nada tão “espetacular”, entretanto, quanto o ocorrido na madrugada de 11 de março de 1978, quando partes de um foguete soviético reentraram na atmosfera acima da cidade do Rio de Janeiro e caíram no Oceano Atlântico. Foi um belo espetáculo. Inúmeros fragmentos, entrando em ignição devido ao atrito com a atmosfera, brilharam intensamente, enquanto “cortavam o céu”. Mas se a reentrada tivesse acontecido alguns minutos depois teríamos uma tragédia, pois a queda seria na área urbana do Rio e não no oceano.

 

 
        Em fevereiro passado um satélite norte americano desgovernado (usado para espionagem) foi destruído por um míssil, felizmente com “sucesso”, antes que caísse sobre alguma região de nosso planeta. Esse satélite estava carregado com hidrazina, elemento altamente tóxico. A queda desse satélite em área habitada poderia levar a um número incalculável de mortes. A sua explosão, entretanto, produziu um número incalculável de dejetos e detritos que estão orbitando nosso planeta a baixas altitudes (perigeo abaixo de 200km). As suas partes maiores, com mais de 10 centímetros, deverão reentrar na nossa atmosfera em junho e julho próximos.
Em março de 2001 a estação espacial russa Mir, de 120 toneladas, voltou ao nosso planeta em uma queda controlada. Várias partes, algumas com várias toneladas, caíram no Oceano Pacífico Sul, a leste da Nova Zelândia — área essa designada por tratados internacionais como nosso “lixão” espacial.
        O “lixo espacial” que mais deixou os cientistas apreensivos foi, sem dúvida alguma, a estação espacial norte americana Skylab, de 69 toneladas, que em julho de 1979 caiu quase que totalmente descontrolada na Terra. Várias de suas partes atingiram o oeste da Austrália e o Oceano Índico. Cerca de quatro anos antes, um estágio de 38 toneladas do foguete Saturno II, que lançou a Skylab, já havia causado apreensão ao cair, também descontroladamente, no Oceano Atlântico, ao sul dos Açores.
Em janeiro de 1979 um satélite militar soviético (Cosmos 954) portando um pequeno reator nuclear ficou descontrolado, vindo a cair no Canadá; felizmente em área desabitada. O serviço de inteligência norte americano chegou a lançar um alarme atômico para os paises ocidentais.
        Casos como esses em que temos nossas vidas ameaçadas por lixo espacial, aqui, na superfície de nosso planeta, por enquanto ainda são poucos. Entretanto esses corpos, ameaçando nossos satélites, também ameaçam nossas pesquisas; comunicações; informação; economia; etc.; e essa ameaça é diária.
        Os números não são precisos, mas segundo levantamento efetuado pela NASA (Agência Espacial Norte Americana), calcula-se que existam por volta de 3,5 milhões de resíduos metálicos; lascas de pintura; plásticos; etc., com dimensões inferiores a um centímetro, orbitando nosso planeta. Objetos entre um e dez centímetros, nessas mesmas condições, devem ser cerca de 17,5 mil; e sete mil com tamanhos maiores que dez centímetros. No total, devemos ter mais de três mil toneladas de lixo espacial orbitando nosso planeta a menos de 200 km de altitude.
        Até mesmo partículas ínfimas como pequeníssimas lascas de pintura, podem danificar irremediavelmente uma nave ou um satélite ou mesmo matar um astronauta devido às altíssimas velocidades que adquirem. A velocidade média desses dejetos é da ordem de 25 mil km/h.

 

 
        O acidente espacial mais grave até hoje registrado aconteceu em julho de 1996. Um satélite militar francês (Cerise) foi atingido por um fragmento de um foguete também francês (Ariane) que dez anos antes havia explodido no espaço. O satélite se desestabilizou, vindo a cair, felizmente de forma controlada, em nosso planeta.
        Algumas ações (por enquanto ainda tímidas) têm sido realizadas para se enfrentar o problema do lixo espacial. Em fevereiro de 2007, a ONU deu um passo importante nesse sentido, aprovando as “Diretrizes para a Redução dos Dejetos Espaciais”, em reunião do Sub-comitê Técnico-Científico do Comitê da ONU para o Uso Pacífico do Espaço (COPUOS).
Tais diretrizes, entretanto, não têm sido seguidas. Em julho passado, por exemplo, os astronautas Clay Anderson e Fyodor Yurchikhin, “limpando” a Estação Espacial Internacional, descartaram no espaço um tanque de amônia de 636 kg.
 

 


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