DE GALILEU A ARMSTRONG
AS VÁRIAS FACES DA LUA

 

Prof. Mauro Lúcio Leitão Condé

Professor de História da Ciência do Depto. de História / FAFICH / UFMG

 

 

RESUMO:O texto procura mostrar, através da história da ciência, diversos modos através dos quais o homem "viu" a lua, a partir de diferentes modelos de ciência. Em um primeiro momento, é destacado a passagem de uma compreensão não propriamente científica que caracterizou a visão de mundo clássica, baseada em grande medida na filosofia de Aristóteles, ao primeiro modelo estritamente científico no início da modernidade, tendo como referência sobretudo Copérnico e Galileu Galilei. Finalmente, pretende-se discutir essa relação entre o homem e a lua a partir de alguns aspectos epistemológicos da Física contemporânea.

Palavras-chaves: História da ciência; astronomia; física; chegada do homem à lua.

ABSTRACT: The text tries to show, through the history of science, several ways through which the man "saw" the moon, starting from different models of science. In a first moment, it is outstanding the passage of a not properly scientific understanding that characterized the classic world vision, based on great measure in Aristotle's philosophy, to the first model strictly scientific in the beginning of the modernity, tends above all as reference Copernicus and Galileu Galilei. Finally, it intends to discuss the relationship between the man and the moon starting from some epistemological aspects of the contemporary Physics.

Key Words: History of science; astronomy; physics; the man's arrival in the moon.

 


 

Como sabemos, a lua sempre foi companheira do homem desde os tempos imemoriais. Assim, diversas foram as observações, percepções, interpretações, etc., que, ao longo de sua história, o homem elaborou sobre a lua, desde suas primeiras representações míticas, até talvez o maior ato de ousadia e arrojo de sua mais complexa civilização tecnocientífica, a chegada do homem à lua, no dia 20 de julho de 1969, há exatos 30 anos. No texto que se segue, o meu objetivo é mostrar alguns aspectos dessas diferentes interpretações que o homem, através da história da ciência, elaborou sobre a lua. Não procurarei propriamente abordar os aspectos tecnológicos e científicos dessas diferentes interpretações, mas como esses aspectos são vistos a partir de suas inserções históricas e como essas, reciprocamente, de algum modo influenciam tais aspectos tecnológicos e científicos.

Para abordar os distintos modos através dos quais o homem procurou compreender a lua, ao longo da história da ciência, minha perspectiva de leitura tem como principal referência a obra de Thomas Kuhn, em especial, A Estrutura das Revoluções Científicas (The Structure of Scientific Revolutions), a partir de onde Kuhn nos mostra que a ciência é o produto de uma época, de seus valores e de suas capacidades interpretativas. Com efeito, para Kuhn, não há propriamente uma "verdade científica" na medida em que toda "objetividade" é vista a partir dos valores internos à cultura e à época na qual a comunidade científica está inserida. Toda visão de mundo é, assim, construída dentro dessa perspectiva. Kuhn chama de paradigma esse conjunto de valores que, em uma dada época, constitue a visão de mundo de uma determinada comunidade regendo, a partir daí, suas práticas científicas.

Procurarei mostrar, assim, no que se segue, como a lua foi vista dentro de diferentes paradigmas. Desde o paradigma aristotético, não propriamente científico, passando pelo paradigma da ciência moderna, centrado na figura de Galileu e, em seguida, a partir de algumas implicações epistemológicas da ciência contemporânea - em especial da mecânica quântica - , procurarei tecer algumas considerações em torno da percepção que o homem contemporâneo possui da lua. É meu objetivo caracterizar, desse modo, três faces da lua. Dito de outra forma, três interpretações que o homem elaborou sobre a lua, o que poderíamos chamar: a lua de Aristóteles; a lua de Galileu e finalmente a lua de Armstrong.

No ano de 1609, Galileu Galilei (1564- 1642) apontou para a lua uma luneta que ele mesmo construíra, a partir de informações sobre um invento semelhante na Holanda, fazendo desse artefato, muito mais do que uma possibilidade bélica ou uma simples curiosidade, um poderoso "instrumento científico"2, isto é, o "telescópio" (perspicilli). Com esse ato, e tudo que dele pode concluir acerca da lua e de outros astros relatado, no ano seguinte, em seu livro Sidereus Nuncio (Mensageiro das Estrelas)3, Galileu estabeleceu, se não o mais importante ato a dar início a instauração da ciência moderna, pelo menos um dos mais significativos acontecimentos científicos até então. O que Galileu vira na lua, isto é, um relevo acidentado com montanhas e vales, de forma semelhante à terra, caminhava, sob certos aspectos, ainda que indiretamente, no sentido de confirmar a formulação do astrônomo polonês Nicolau Copérnico (1473-1543) de que a terra não seria o centro do sistema, como se pensava até então, mas apenas um planeta a orbitar em torno do sol. Em outras palavras, o que Copérnico pretendia era a destituição da concepção geocêntrica de mundo e a afirmação do heliocentrismo na cosmologia. O que ficou conhecido como "revolução copernicana". Copérnico publicara suas idéias, em 1543, no livro As Revoluções das Orbes Celestes (De Revolutionibus Orbium Coelestium), depois de 36 anos de hesitação4.

Assim, ainda que as primeiras observações de Galileu, em 1609, não confirmasse diretamente o sistema heliocêntrico, abria uma outra frente para a refutação do geocentrismo na medida em que suas observações refutavam aspectos centrais das idéias de Aristóteles, filósofo grego do século IV a. C., base filosófica do geocentrismo. Nesse sentido, a importância desse trabalho de Galileu foi tanta que, mesmo se não tivesse trazido nenhuma posterior significativa contribuição para o pensamento científico, ainda assim teria escrito seu nome na história da Ciência. Com efeito, além do aspecto propriamente científico, o grande significado desse episódio é o fato dele ser uma espécie de "gota d'água" que irá romper de modo indelével com a visão clássica de mundo, naquele momento, início do século XVII, representada pela síntese "aristotélico-tomista", isto é, uma nova interpretação da concepção de mundo de Aristóteles feita na perspectiva cristã por São Tomás de Aquino (1225-1274).

Para Aristóteles, a terra era o centro do universo. E embora a obra aristotélica, com exceção de sua lógica, só tivesse entrado no ocidente cristão por volta do século XII d. C., significativos aspectos de sua concepção do universo foram amplamente divulgados através do Almagesto, livro do astrônomo alexandrino Cláudio Ptolomeu (90-168 d. C.)5, que, partindo de Aristóteles, elabora um modelo cosmológico onde a terra fica em uma posição fixa e central no sistema. Entretanto, a síntese aristotélico-tomista, extrapola esse aspecto meramente "científico" da obra de Aristóteles quando São Tomás de Aquino estabelece uma série de semelhanças entre o pensamento do filósofo grego e o cristianismo.

Segundo Aristóteles, o mundo no qual vivemos dividia-se entre o mundo sublunar e o mundo supralunar. Com efeito, para aristóteles, a lua é um ponto de referência, um espécie de divisor do mundo. Abaixo da lua, está o mundo dos movimentos violentos, das trajetórias imperfeitas, das coisas corruptíveis compostas pelos quatro elementos: terra, ar, fogo e água, que Aristóteles vai buscar na teoria de Empédocles (490-435 a. C.)6. Contrariamente, o mundo supralunar, isto é, a lua e os demais astros, constitui o mundo da perfeição: dos movimentos circulares, das substâncias perfeitas das quais os astros são feitos, isto é, do éter ou "quinta-essência". Para São Tomas, no seu projeto de cristianização da obra aristotélica, não foi difícil associar essa perfeição do mundo supralunar ao céu do imaginário cristão ou ainda encontrar outras semelhanças como as havidas entre o primeiro motor imóvel de Aristóteles, que a tudo move e não é movido, com o seu bom Deus cristão.

Grande parte das idéias de Aristóteles eram baseadas em simples observações do cotidiano, poderíamos dizer: do "senso comum". O que levou alguns comentadores posteriores a chamar Aristóteles de o filósofo do senso comum. Em outras palavras, as idéias aristotélicas partem de evidências imediatas como, por exemplo, a que nos mostra que aparentemente a terra fica imóvel e o sol e a lua se movem. Com efeito, toda idéia contrária a essa, encontrará dificuldades imensas de aceitação não apenas por se opor ao senso comum mas também por ser contrária à autoridade de Aristóteles. Some-se a isso a posterior cristianização de sua obra. Foi, assim, por várias centenas de anos, difícil, se não impossível, destituir a visão geocêntrica de mundo.

Entretanto, não faltaram candidatos para essa empreitada. Na antiguidade, foi o caso de Aristarco de Samos que, apenas duas gerações após Aristóteles, defendeu a idéia de que o sol era o centro do sistema e não a terra. Na realidade, Aristárco não foi propriamente o primeiro a fazer tal afirmativa. Os pitagóricos7, antes mesmo de Aristóteles, elegeram o sol como o centro. Entretanto, diferentemente dos pitagóricos, Aristárco conseguiu de modo razoavelmente "científico" provar a sua tese. Feito extraordinário para a sua época. Contudo, Aristárco não foi capaz de convencer o senso comum e nem mesmo refutar a autoridade aristotélica e, assim, mudar os valores culturais arraigados. A visão de mundo aristotélica prevaleceu e chegou, através dos árabes, ao ocidente cristão medieval no século XII e, em seguida, como já dito, foi adaptada ao cristianismo por São Tomás de Aquino.

Com efeito, no século XVI, Copérnico ao retomar o sistema heliocêntrico encontra um cenário onde do ponto de vista cultural a síntese aristotélico-tomista ainda rege a visão de mundo. No entanto, o sistema geocêntrico aristotélico-ptolomaico já dava sinais de exaustão. Como nos relata o próprio Copérnico ao se referir ao sistema de Ptolomeu,

(...) muitas coisas como nós as entendemos, não concordam com as conclusões que resultam do seu sistema, além de certos outros movimentos terem sido descobertos, os quais ainda não eram deles conhecidos. Do mesmo modo Plutarco, em uma discussão sobre o ano tropical do sol, diz que a deslocação dos corpos celestes tem fugido muito à perícia dos astrônomos. Para utilizar o próprio ano como um exemplo, é bem conhecido, penso eu, quão diferentes têm sido sempre as opiniões relativas ao problema, e assim muitos abandonaram toda a esperança de que uma exata determinação do ano pudesse ser encontrada. A situação é a mesma a respeito de outros corpos celestes.8"

Contudo, se, por um lado, de um ponto de vista científico, o geocentrismo, ao tempo de Copérnico, parece não mais ser sustentado, por outro lado, de um ponto de vista cultural, por assim dizer, ele ainda é a base de uma visão teológica de mundo que determina todos os comportamentos daquela sociedade. Daí, compreendemos a hesitação de Copérnico em expor as suas idéias.

(...) ao pensar comigo mesmo como aqueles que afirmam ser confirmada pelo julgamento de muitos séculos a opinião de que a terra está imóvel no meio do céu e aí está colocada servindo-lhe de centro, haviam de considerar uma cantilena absurda defender eu, pelo contrário, que é a terra que se move; hesitei comigo durante muito tempo se havia de dar a lume meus Comentários9 escritos para a demonstração desse movimento.10"

Com efeito, ainda que possamos considerar, sob certo sentido, o livro de Copérnico como sendo o marco inicial da ciência moderna, como salientam alguns historiadores11, devemos observar que mais que Copérnico, Galileu, ainda que partindo do sistema heliocêntrico de seu antecessor polonês, ajudará a promover essa mudança de paradigma da visão clássica de mundo para a visão moderna de uma forma muito mais abrangente. Em outras palavras, Galileu, na exposição de suas idéias, ao procurar refutar a concepção "científica" aristotélica, acabará por se chocar de frente com a vigente visão teológica de mundo assentada no aristotelismo e, assim, acentuando o papel da ciência na constituição da visão moderna de mundo12. Dessa forma, se a concepção aristotélica resistiu a tudo e a todos até Copérnico, em certo sentido, entretanto, o ônus da prova coube a Galileu, e suas observações sobre a lua tiveram grande importância nesse fato.

A idéia do heliocentrismo retomada por Copérnico e continuada por Galileu e Kepler será um duro golpe na consciência do homem arraigado aos valores tradicionais: teocentrismo, geocentrismo, etc. Em outras palavras, paradoxalmente, o movimento que vai do teocentrismo ao antropocentrismo se dá através de um tipo de "descentramento" do próprio homem. Segundo Sigmund Freud, essa será a primeira ferida narcísica da humanidade, escreve Freud,

"No decurso do tempo, a humanidade teve de agüentar, das mãos da ciência, duas grandes ofensas a seu ingênuo amor-próprio. A primeira foi quando percebeu que a terra não era o centro do universo, mas apenas um pontinho num sistema de magnitude dificilmente compreensível... A segunda quando a pesquisa biológica roubou-lhe o privilégio de ter sido criado especialmente, e relegou o homem a descendente do mundo animal.13"

Com efeito, a retomada dessas idéias por Copérnico, em um contexto diferente daquele em que Aristarco tinha defendido o heliocentrismo, parece ganhar vida nova. E, no meu entender, as observações que Galileu fizera da lua têm uma importância decisiva nesse novo contexto.

Como já dito, o modelo de mundo Aristotélico-ptolomaico, na antigüidade, não apenas estava arraigado enquanto valor cultural baseado no senso comum e "científico" a partir da autoridade de Aristóteles, mas sob diversos aspectos funcionava, isto é, a carta astronômica feita a partir desse modelo serviu durante muitos séculos para a navegação. Mais que isso, era considerado um modelo condizente com as escrituras sagradas.

Entretanto, a obra de Copérnico, embora pretendera ser científica fornecendo provas matemáticas, tabelas baseadas em observações, etc.14, pode ser aceita, na medida em que podia ser pensada como uma mera hipótese15. Contudo, ao passo que Copérnico oferecera um complexo sistema com cálculos e, assim, distante do leigo, Galileu, com seu telescópio, ofereceu um prova visível não apenas aos cientistas (Filósofos)16 mas aos olhos do homem comum. A lua estava ali para quem quisesse vê-la e tirar as suas conclusões.

Para os valores culturais vigentes à época e, sobretudo, para as autoridades eclesiásticas, a "hipótese" de Copérnico poderia não passar de uma simples especulação filosófica sem maiores conseqüências. Até que as idéias de Copérnico, começam a causar alguns pensamentos extremamente incômodos à concepção teológica de mundo sustentada no geocentrismo. O caso mais expressivo, anterior a Galileu, foi o do filósofo Giordano Bruno (1548-1600) que conclui que, se Copérnico estivesse certo, a terra sendo um simples planeta17 a girar em torno do sol, significa dizer que não existem lugares privilegiados no universo: logo também não deveria haver uma "ordem" privilegiando determinados grupos em detrimento de outros. Na medida em que essas idéias de Bruno ameaçavam uma tal ordem vigente, no ano de 1600, a igreja católica encarregou-se de queimá-lo através do santo ofício - a inquisição.

Entretanto, Galileu, apenas nove anos depois, entendia que com ele tudo seria diferente, uma vez que Giordano Bruno não tinha provas "científicas", mas meras idéias filosóficas. Entretanto, o que Galileu parece não ter compreendido é que tais idéias, sendo filosóficas ou não, eram extremamente ameaçadoras a ordem vigente. As observações que Galileu fizera da lua seria assim um tipo de prova cabal. Mas, afinal, qual é a importância do que Galileu vê na lua? Galileu através de sua luneta mostrava ao homem moderno que não havia diferenças entre o mundo sublunar e o supra-lunar, pois não apenas a lua tinha um terreno acidentado, como também Júpiter possuía satélites e o sol manchas, etc. Portanto, Aristóteles estava errado quanto à constituição e aos movimentos dos corpos celestes. Assim, as observações e as teorias de Galileu baseadas nessas observações prosseguem. Entretanto, alguns anos mais tarde, por suas idéias, Galileu é preso e julgado pelo santo ofício. Mesmo retratando-se é condenado à prisão domiciliar e a não mais escrever sobre ciência.

E a partir do momento em que se insurge contra esses dois pólos, isto é, o sistema "aristotélico-ptolomaico" e a síntese "aristotélico-tomista", Galileu, como ilustra de forma brilhante Bertold Brecht em A Vida de Galileu, não é apenas um gênio científico, um cientista inaugural, mas o arauto de uma nova visão de mundo que se instaura com a modernidade e onde a ciência se caracterizará pela busca da "verdade científica" que transcende aos valores antropológicos.

Com efeito, Galileu é uma figura emblemática exatamente porque está no epicentro não apenas de uma revolução científica, mas dessa mudança de valores culturais onde a ciência gradativamente desempenhará um papel social central, na medida em que passa a ser o instrumento de maior acuidade na revelação da realidade. Assim, a coragem de Galileu ao expor suas idéias o levaram à condenação pelo santo ofício, fazendo-o retratar-se, contudo, sua nova ciência e seus ideais sobreviveram e encontraram prosseguimento com outros cientistas. Naturalmente, a condenação de Galileu foi política e não propriamente cientifica. Mesmo a igreja católica da época, através de seu astrônomo oficial, o padre Clavius, reconheceu a veracidade científica das teses de Galileu. Entretanto, a "verdade" da ciência moderna, na medida em que não se coadunava com a visão teológica, devia se declinar. Contudo, a visão de mundo clássica não sobreviverá, ainda que tentando calar Galileu.

Dessa forma, Galileu ainda é emblemático, não apenas por importar para a esfera político-social suas idéias, mas também porque essa expansão se fundamentava na certeza de uma "verdade" da ciência que pudesse ser mostrada de modo indiferente dos valores culturais (antropológicos). Assim, Galileu, juntamente com outros pais da ciência moderna mostraram gradativamente que a ciência é uma atividade que desvela o caráter obscuro da natureza, bastando para isso que nos voltemos para o mundo natural utilizando a experimentação e a matemática, uma vez que o livro da natureza, segundo Galileu, está escrito em caracteres matemáticos.

Com o passar do tempo, no bojo das transformações econômicas, sociais, culturais, políticas, etc., trazidas pela modernidade, essa certeza da verdade científica demonstrada e confirmada experimentalmente, foi tão grande que o próprio imaginário teológico medieval defendido ferozmente pela igreja com a força do tribunal do santo ofício, acabou por recuar. A fé, na medida em que o pensamento moderno avança, deixa o espaço público e se aloja no espaço privado. Cerca de três décadas após a morte de Galileu, Newton encontrará uma sociedade relativamente muito mais aberta às idéias científicas.

Triunfa, assim, esse ideal de uma "verdade" científica representado pelo que Galileu chamou de busca das "características primárias" (o que é quantificável ou mensurável), uma vez que, ainda segundo Galileu, a ciência não tinha nada a dizer sobre as "características secundárias" (o homem, os valores culturais, Deus, etc. - qualidades). Com efeito, a ciência moderna no afã de demonstrar essa objetividade acaba por mitigar os aspectos antropológicos em nome de uma "objetividade" científica, onde os fatos falam por si mesmos.

E é, dessa forma, que Galileu pretende ver a lua, isto é, como algo do domínio do observável, do mensurável ou das características primárias. E, sobretudo, nesse sentido, isto é, como alguém que procura destituir toda a subjetividade da interpretação científica, é que Galileu se torna um emblema da ciência moderna. É conhecida a análise de Koyré sobre esse papel da ciência moderna que substitui

"(...) nosso mundo de qualidade e de percepções sensíveis, mundo em que vivemos, amamos e morremos, por outro mundo, pelo mundo da quantidade, da geometria deificada, mundo em que, embora haja lugar para tudo, não há lugar para o homem. Assim, o mundo da Ciência - mundo real - distanciou-se e separou-se inteiramente do mundo da vida, que a ciência é incapaz de explicar, mesmo por uma explicação dissolvente que faria dele uma aparência 'subjetiva'. Na verdade, esses dois mundos são todos os dias unidos pela praxis. Mas, para a theoria, estão separados por um abismo. É nisso que consiste a tragédia do espírito moderno que 'resolve o problema do universo', mas somente para substituí-lo por um outro: o enigma de si mesmo"18.

Galileu teve um papel significativo no que diz respeito a esses dois posicionamentos da ciência moderna, isto é, tanto na destituição de uma cisão entre o mundo sublunar e supralunar pela imposição da objetividade dos fatos, das características primárias, quanto também pela destituição da subjetividade do homem que vê esse fato. Essa perspectiva de compreensão da ciência elaborada por Galileu conduziu o filósofo E. Husserl a dizer que Galileu foi o Gênio "descobridor" e, ao mesmo tempo, "encobridor" da ciência. Em outras palavras, foi descobridor na medida em que elege a objetividade como referência central e a partir daí, não apenas consegue resultados científicos extraordinários, mas também um importante lugar social para a ciência e a refutação da visão teológica. Entretanto, é encobridor na medida que restringe esse saber científico a uma objetividade da qual o homem é um mero espectador, condenado a suprimir toda a sua subjetividade, toda a sua visão antropológica dos fenômenos em nome da "objetividade", da "característica primária". Mais que isso, deixando uma tal perspectiva como herança para as gerações futuras.

Esse modelo de Ciência inaugurado por Galileu, e os cientistas modernos19, com seu projeto de quantificação das características primárias, desenvolverá e encontrará seu ápice na obra de Newton, isto é, na síntese newtoniana. É interessante observar que, na tentativa de manter esse ideal de racionalização e de objetividade científica, os aspectos da obra de Newton que não se circunscreviam, por assim dizer, às características primárias de Galileu, isto é, ao mensurável, como é o caso de toda a obra de Newton sobre a alquimia, foram praticamente escondidos por seus sucessores, uma vez que a racionalização do mundo possibilitada pelos Princípios Matemáticos da Filosofia Natural (Philosophia Naturalis Principia Mathematica) que sintetizará todo o ideal de racionalização das leis do universo não admite esse espaço da subjetividade, do "não-racional". E, com a lei da gravitação universal, finalmente, a harmonia entre a terra e o céu (a lua) será restabelecida. Desta vez não mais pelo equilíbrio entre o "perfeito" e o "imperfeito", isto é, entre o mundo sublunar e supralunar aristotélico, mas através da ordem que regula todo o universo expresso pela lei universal que explica não apenas porque um objeto qualquer cai ao chão, mas também as relações entre a lua e a terra, bem como o mais longínquo dos astros celeste.

Newton constitui, assim, uma espécie de "síntese", não apenas enquanto o criador do aparato matemático que abriu acesso às leis do universo, mas da própria idéia moderna de racionalidade. Em outras palavras, na crença, não apenas na existência de leis a priori no universo, mas também na crença de que poderíamos descobri-las através da racionalidade. Racionalidade essa expurgada de todos os valores antropológicos.

Entretanto, essa certeza absoluta da racionalidade científica moderna parece ter o seu fim, no início do século, a partir de um novo paradigma na física representado pela teoria da relatividade de Albert Einstein e da Mecânica Quântica20 - Max Planck, Niels Bohr, Werner Heisenberg, etc. - que desvelam um mundo totalmente diferente do universo newtoniano e onde as certezas que nortearam enormemente os trabalhos de cientistas como Copérnico, Galileu e Newton parecem não mais existir.

Naturalmente, a física contemporânea não destituiu o valor da física clássica, mas, certamente, ampliou enormente as possibilidades de compreensão do universo, ao penetrar no extraordinário mundo atômico. Esse novo paradigma traz uma série de conseqüências epistemológicas. E, talvez, a principal delas seja a destituição da certeza última da objetividade científica (características primárias). Destituição essa demonstrada pela Mecânica Quântica, em particular, por Heisenberg e seu "princípio de incerteza".

O princípio de incerteza de Heisenberg, que demonstrou não ser possível medir a posição e o momento de uma partícula ao mesmo tempo, possibilitará também concluirmos que não mais podemos aspirar a objetividade pretendida pela ciência moderna, isto é, se entendemos como objetividade a exatidão de toda e qualquer mensuração que se possa obter através de instrumentos criados pelo próprio homem. O principio de incerteza

"afirma existirem certos pares de quantidades, como a posição e velocidade de uma partícula, que se relacionam de tal modo que a determinação de uma delas com crescente precisão acarreta necessariamente a determinação da outra com menor precisão."

O que leva Heisenberg a concluir que no processo de conhecimento científico, em última instância, "nós decidimos, pela seleção do tipo de observação empregado, quais os aspectos da natureza que deverão ser determinados e quais os que serão apagados.21" Com efeito, a metodologia da ciência moderna, com a certeza de suas características primárias, não pode mais constituir parâmetro último de nosso conhecimento sobre a realidade. Assim, segundo Heisenberg,

"Na teoria quântica, temos que usar um método novo para tornar objetivas as percepções (...) Toda percepção refere-se a uma situação observacional que precisa ser especificada, para que dessa percepção resulte uma experiência. A conseqüência de uma percepção já não pode ser objetivada à maneira da física clássica. Uma vez que um experimento nos permita deduzir a presença de um átomo de Rádio B, o conhecimento resultante está completo quanto a essa situação observacional específica, mas incompleto quanto a outra situação observacional, como por exemplo, uma que envolva afirmações sobre a emissão de um elétron. Quando duas situações observacionais diferentes estão na relação que Bohr denominou de complementar, o conhecimento completo de uma significa, necessariamente, o conhecimento incompleto de outra.22"

Ainda que a mecânica quântica não tenha o objetivo de abolir a mecânica clássica newtoniana, múltiplas são as conseqüências epistemológicas advindas, em particular, do "princípio de incerteza", não apenas a falência da idéia de objetividade última, pretendida pela ciência moderna, mas também conseqüências como a possibilidade de podermos aplicar a um mesmo evento leis naturais inteiramente diversas. Assim, podemos nos perguntar: o que, finalmente, a compreensão do mundo subatômico trazida pela mecânica quântica pode nos ajudar para compreender o que é a realidade fora do nivel subatomico?

Como poderíamos, se não a partir da mecânica quântica propriamente, pelo menos, a partir de suas implicações epistemológicas, pensar, por exemplo, a nossa percepção da nossa antiga companheira, agora, já visitada, isto é, a lua de Armstrong? Em outras palavras, 1- se Aristóteles, a partir de uma estrutura social e política hierárquica, compreendia também de forma hierárquica o mundo natural onde a lua tinha o importante papel de fornecer os limites; 2- se Galileu destruiu essa hierarquia, que também fora apropriada pelo imaginário cristão, em nome da certeza e da objetividade científica encontrada na matematização do observável; 3- como agora pensar a lua, enquanto objeto da nossa ciência, a partir da destituição das certezas últimas colocadas, em particular, pela mecânica quântica?

Acredito que possamos, sob certo sentido, compreender a lua de Armstrong a partir daquilo que a filósofa Hannah Arendt chamou de "o homem de Heisenberg", isto é, aquele que restituiu ao homem, como que um ato de condenação, a dimensão antropológica de seu conhecimento - com tudo que de bom e de ruim que isso possa trazer. Em outras palavras, o homem por mais que possa estender o seu conhecimento do mundo, indo a lugares nunca antes imaginados, sempre verá tais horizontes, mais do que exclusivamente a partir daquilo que é humanamente possível perceber, a partir de suas "escolhas antropológicas" que sempre deixará outras alternativas, outras possibilidades pelo caminho. Para Arendt,

"Tudo isso torna a cada dia mais improvável que o homem venha a encontrar no mundo ao seu redor algo que não seja artificial e que não seja, por conseguinte, ele mesmo em diferente disfarce. O astronauta, arremessado ao espaço sideral e aprisionado em sua cabine atulhada de instrumentos, na qual qualquer contato físico efetivo com o meio ambiente significaria morte imediata, poderia muito bem ser tomado como a encarnação simbólica do homem de Heisenberg - o homem que terá tanto menos possibilidades de deparar algo que não ele mesmo e objetos artificiais quando mais ardentemente desejar eliminar toda e qualquer consideração antropocêntrica de seu encontro com o mundo não-humano que o rodeia.23"

Entretanto, dizer que não temos mais critérios últimos de percepção do real, não é dizer que não temos critérios. Naturalmente, a ciência continua a ser um poderoso instrumento. Contudo, parece que somos forçados a reavaliá-la a partir, não apenas dos novos desafios, mas a partir das reflexões epistemológicas decorridas da própria ciência que nos trouxe aonde chegamos.

O que o "homem de Heisenberg", sob certos aspectos, parece nos mostrar, destituindo a idéia de uma certeza última, é a compreensão de que, enquanto interpretações do próprio homem, não há profundas diferenças entre a lua de Aristóteles, a lua de Galileu, a lua de Armstrong e mesmo, sob certo aspecto, a lua do poeta, uma vez que essas interpretações existem para nós, enquanto humanos, a partir de nossa antropológica capacidade cognitiva.


 

GLOSSÁRIO

 

1Esse texto foi concebido para um debate interdisciplinar em comemoração aos trinta anos de chegada do homem à lua promovido pelo Observatório da Serra da Piedade da UFMG no dia 20 de julho de 1999.

2Na realidade, as primeiras observações dos astros através do telescópio, provavelmente, não foram de Galileu, mas do inglês Th. Harriot (1560-1621) e do alemão Simon Marius (1570-1624). Cf. Évora, F. R. R., A Revolução copernicana-galileana, p. 68. Entretanto, segundo Évora, esse crédito é atribuído a Galileu talvez devido não apenas às suas observações sistemáticas, mas também à associação dessas a argumentos favoráveis à teoria de Copérnico. Contudo, no meu modo de ver, não apenas o crédito da primeira observação mas também - ainda que equivocada - a atribuição da paternidade da luneta, mostram como Galileu concentrou em sua imagem importantes passos da passagem da visão de mundo antiga para a moderna. Nesse sentido, Galileu se torna uma figura emblemática na constituição da ciência moderna.

3Ou A Mensagem das Estrelas. Cf. Évora, F. R., A Revolução Copernicana-Galileana, p. 5

4Entretanto, em 1530, Copérnico já havia publicado anonimamente Os Comentários (Commentariolus), um espécie de resumo de suas idéias sobre o heliocentrismo sem, contudo, conter os cálculos que, segundo ele, confirmariam sua hipótese.

5Nessa época, Alexandria representava o mais avançado centro "científico" existente.

6Cf. ARISTÓTELES, Metafísica, I, 3.984 a 8. É interessante observar que Aristóteles, na procura de um elemento constitutivo último do mundo, recusa a teoria dos atomistas Leucipo e Demócrito para aceitar os quatro elementos de Empédocles. Embora em uma perspectiva contemporânea possa nos parecer que o átomo fosse uma escolha mais pertinente, com os quatro elementos, Aristóteles encontrará um modo de hierarquizar o mundo natural. No meu ponto de vista, essa escolha sugere, assim, a necessidade de Aristóteles encontrar uma hierarquia no mundo natural, que, sob certo aspecto, legitimasse a hierarquia do mundo político, não apenas presente na sociedade grega, mas defendida por Aristóteles.

7Pitágoras (580-497 a. C. aproximadamente) . O pitagorismo foi um movimento filosófico, político e religioso.

8COPÉRNICO, Nicolau, As Revoluções dos Orbes Celestes, p. 15

9Aqui Comentários é a versão de 1530. Ver nota 5

10COPÉRNICO, Nicolau, As Revoluções dos Orbes Celestes, p. 5

11Por exemplo, I. Bernard Cohen. "Muito freqüentemente o ano de 1543 é tomado como sendo o ano de nascimento da ciência moderna. Naquele ano, foram publicados dois grandes livros que conduziram a significativas mudanças no conceito que o homem tinha da natureza e do mundo: um foi o do religioso polonês Nicolau Copernico e o outro de Fleming Andreas Vesalius, Sobre a Estrutura do Corpo Humano." Cf. The Birth of a New Physics, p. 24. Ou ainda, A. Koyré, "O ano de 1543, ano da publicação do De Revolutionibus Orbium Coelestium e o da morte do autor, Nicolau Copérnico, marca uma data importante na história do pensamento humano. Estamos tentados a considerar essa data como significando 'o fim da idade média e o começo dos tempos modernos', porque, mais que a conquista de Constantinopla pelos turcos ou a descoberta da América por Cristóvão Colombo, ela simboliza o fim de um mundo e o começo de outro." Cf. La Revolution Astronomique, p. 15

12Ao procurar um espaço de autonomia para as idéias científicas - filosóficas - Galileu estará insistindo em um caminho já trilhado por pensadores anteriores como Guilherme de Ockham que, no século XIV, já insistira nessa tese e fora perseguido pela igreja. Entretanto, ainda que Galileu seja condenado, o século XVII gradativamente absorverá essa dissociação entre filosofia e ciência, por um lado, e teologia, por outro lado

13FREUD, Sigmund, O Mal Estar na Civilização. A terceira ferida narcísica seria causada pelo próprio Freud com a Psicanálise.

14Não podemos nos esquecer que Aristarco também ofereceu "provas". Além do mais o sistema de Copérnico também era impreciso na medida em que, como comprovará J. Kepler posteriormente, as órbitas não são circulares, mas elípticas onde o sol ocupa um dos lados dessa elipse.

15Entretanto, Copérnico não entendia sua obra como uma hipótese, mas como uma verdadeira prova científica.

16A palavra cientista apenas passa a ser usada do século XIX em diante.

17Etimologicamente, do grego, planeta significa "errante". Assim podemos entender porque para a teologia medieval era impossível conceber que Deus colocasse sua maior criatura, o homem, em um astro de segunda grandeza em uma trajetória errante pelo universo.

18KOYRÉ, A . Études Newtoniennes, pp. 42-43

19O que Koyré irá chamar de o abandono do "mundo do mais ou menos" para a constituição do mundo da precisão. Cf. KOYRÉ, A ., Études d'Histoire de la Pensée Scientifique. O que na perspectiva de Husserl, significa o abandono do mundo da vida (Lebenswelt). Conseqüentemente, da dimensão antropológica do conhecimento.

20Ou física quântica, é a física dos átomos, moléculas, etc.

 21HEISENBERG, Werner, Philosophic Problems of Nuclear Science, Cit. por Arendt, H., "A Conquista do Espaço e a Estatura Humana", p. 340

22HEISENBERG, Werner, A Parte e o Todo, pp. 143-144

23ARENDT, Hannah, "A Conquista do Espaço e a Estatura Humana", p. 341


 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ARISTÓTELES, Physics, in The Works of Aristotle, vol II, Oxford, Cleredon Press, 1966

_____, De Caelo, in idem

_____, De Generatione et Corruptione, in idem

_____, Metaphysics, in idem

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BRECHT, Bertold, vida de Galileu, in: Teatro Completo, Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1986

COHEN, I. B., The Birth of a New Physics, Penguin Books, 1992

COPÉRNICO, Nicolau, As Revoluções dos Orbes Celestes, Título Orig. De Revolutionibus Orbium Coelestium, Trad. A . Dias Gomes; G. Domingues, Ed. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1984

ÉVORA, Fátima Regina, A Revolução copernicana-Galileana, Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência, Campinas, 1988

FREUD, Sigmund, Mal-estar na Civilização, Tra. J. Abreu, Abril Cultural, São Paulo, 1978

GALILEI, Galileu, The Starry Messenger, in Discoveries and Opinions of Galileu, Trad. S. Drake, Anchor Books, 1957

HEISENBERG, A Parte e o Todo, Trad. V. Ribeiro, Contraponto, Rio de Janeiro, 1996

HUSSERL, Edmund, Krisis, Husserliana, VI.

KOYRÉ, Alexandre, Estudos Galilaicos, Trad. N. F. da Fonseca, Lisboa, Dom Quixote, 1986

_____, La Revolution Astronomique, Paris: Hermann, 1961

_____, Études Newtoniennes, Paris: Gallimard, 1968

_____, Études d'Histoire de la Pensée Scientifique, Paris: Gallimard, 1973

KUHN, Thomas, The Structure of Scientific Revolution, The University of Chicago Press, 2a. Ed., 1970.

 

 


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